Revista da Confederação Nacional da Indústria

Renato da Fonseca, gerente-executivo de economia da CNI, também cita o cenário de incertezas, mas afirma que as medidas adotadas pelo governo foram importantes para evitar uma queda maior do PIB. Se- gundo ele, será necessário manter alguns dos estímulos adotados pelo governo. “Os benefícios estão terminando. Dificilmente, o Congresso vai deixar de estender o auxí- lio emergencial. Você precisa ter todo esse aparato ou vai morrer na praia”, resume o executivo. Segundo Fonseca, se uma segunda onda da Covid-19 chegar ao Brasil, novas medidas de isolamento encontrariam as empresas e as pessoas mais fragilizadas. “Se houver uma reedição das medidas de distanciamen- to similares às que tivemos, você pode espe- rar o mesmo, uma pancada muito forte no comércio. Toda a recuperação irá por água abaixo e você começa tudo de novo”. Mas, independentemente disso, ele também es- tima que o ritmo de crescimento será me- nor no primeiro semestre de 2021. “Há um período que vai durar até o final do primeiro trimestre de 2021, com falta de insumos e dificuldade de atendimento de demanda. Isso está espalhado na indústria. Temos um problema de oferta, de desorga- nização, que é normal numa crise dessas, mas isso leva tempo. O impacto na inflação é temporário. A dificuldade do consumidor em adquirir também é temporária”, comen- ta Fonseca, que estima uma melhora a par- tir do terceiro trimestre, com “um cresci- mento não muito forte”. NOVA ONDA Em relação a 2021, o cenário de curto prazo apresenta algumas interrogações, diz, cauteloso, Leonardo Carvalho, economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplica- da (Ipea). “Uma delas diz respeito à possibi- lidade de uma nova onda crescente de con- tágio e mortes pela Covid-19, o que poderia significar o retorno de algumas medidas de isolamento e restrições ao funcionamento de algumas atividades. Outra interrogação diz respeito à inflação, cujos efeitos pare- cem ser menos temporários que o previsto anteriormente, podendo gerar alguma pres- são sobre a política monetária”, detalha ele. Segundo Carvalho, a economia brasi- leira iniciou uma recuperação até certo ponto surpreendente já a partir do mês de maio. “Tanto a produção industrial quan- to o comércio varejista seguem apresen- tando um desempenho bastante positivo. Ambos os setores já se situam em patama- res superiores àqueles observados em feve- reiro, período imediatamente anterior ao recrudescimento da pandemia. Já o setor de serviços, cuja atividade foi mais afetada pelas medidas de isolamento social, apre- senta uma trajetória de recuperação mais modesta”, diz ele, que espera avanço nas reformas estruturais, no qual inclui a re- forma administrativa, e na agenda microe- conômica em 2021. A exemplo dos demais entrevistados, ele também considera a condução da política fiscal outro ponto de interrogação. “Embora as medidas adotadas pelo governo tenham se mostrado bem-sucedidas no enfrenta- mento dos efeitos da Covid-19 sobre a ren- da da população, a busca por um orçamen- to equilibrado, que resulte numa trajetória da dívida pública não explosiva, continua ▲ “Estamos precisando de um ajuste fiscal significativo”, alerta Vilma Pinto, pesquisadora do IBRE/FGV-RJ 13 Revista Indústria Brasileira

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