Revista da Confederação Nacional da Indústria

houve um aumento da dívida pública no esforço de combater os efeitos da Co- vid-19, mas ainda não está claro como o governo pretende encaminhar esse tema. “Não sabemos ainda como tudo vai fun- cionar. Quando a gente conversa com as pessoas em Brasília, os sinais que alguns agentes emitem são conflitantes”, explica. “Dependendo da escolha, vemos um ce- nário diferente. Caso a escolha seja o com- prometimento com a manutenção da sus- tentabilidade fiscal de médio a longo prazo, o crescimento vai ser um pouco mais lento no primeiro semestre, porque a economia precisa, na nossa cabeça, digerir tudo que aconteceu ao longo desse 2020. Mas, se não houver compromisso fiscal, o crescimento será menor”, prevê a economista da Garde Asset. “Estamos falando de uma economia que está anestesiada. Você tinha um pacien- te que estava doente, precisou tomar vários analgésicos e agora precisa se recuperar”, compara Natalie Victal. No início do ano, aposta ela, o cresci- mento será mais lento e, no segundo semes- tre, haverá mais espaço para crescer com es- tímulos monetários. “Setores mais sensíveis à taxa de juros estão decolando bem, como o imobiliário, o da construção civil e o de ven- da de automóveis”, afirma Natalie, que pro- jeta um crescimento de 3% para o Produto Interno Bruto (PIB) de 2021, com maior re- cuperação no segundo semestre. Marcelo Portugal, consultor econômico da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do estado do Rio Grande do Sul (Fecomércio-RS), diz que os desafios para 2021 são os mesmos de 2020. Segundo ele, isso significa conter a epidemia da Covid-19 na área sanitária e reconstruir o equilíbrio fiscal, que foi abandonado temporariamen- te neste ano. “Vamos terminar 2020 com um enorme déficit público. O principal desafio, portanto, é conseguir um arranjo político que permita ao governo federal respeitar o orçamento enviado, e ainda não aprovado, ao Congresso. Nele, o teto de gastos é res- peitado e o setor público entra em uma tra- jetória gradual de ajuste fiscal. É um desa- fio monumental”, reconhece. ÂNCORA FISCAL Para ele, o Brasil precisa manter a regra do teto de gastos, que limita o crescimen- to das despesas à inflação do ano anterior. “Essa é, atualmente, a única âncora fiscal efetiva da economia brasileira. Sem ela, o câmbio e a inflação continuarão se elevan- do. Se o Banco Central tiver de elevar os ju- ros para combater a inflação, a situação vai se agravar ainda mais, pois mais juros im- plicam ummaior serviço da dívida pública. Em 2021 temos de vencer um desafio que es- tamos adiando faz muitos anos: fazer o se- tor público caber dentro de um orçamento limitado”, defende Portugal. “No Brasil, estamos precisando de um ajuste fiscal significativo”, concorda a eco- nomista Vilma Pinto, especialista em polí- tica fiscal e pesquisadora licenciada do Ins- tituto Brasileiro de Economia (IBRE), ligado à Fundação Getulio Vargas do Rio de Janei- ro (FGV-RJ). “Desde 2014, viemos apresen- tando déficit nas contas públicas. Havia um processo de melhora bem gradual, com o déficit diminuindo, mas agora, com a pan- demia, esse sinal se inverteu completamen- te. Há muita incerteza do ponto de vista fis- cal’’, diz Vilma Pinto. Entre as incertezas, ela cita a manuten- ção do auxílio emergencial, tema que vem ▲ Assista ao painel do ENAI Perspectivas para a Economia Brasileira ▲ No início do ano, o crescimento será mais lento, mas no segundo semestre haverá mais espaço, prevê Natalie Victal, analista da Garde Asset 10 Revista Indústria Brasileira ▶ dezembro 2020 ▼ Capa

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