Revista Indústria Brasileira - Dezembro

monetária. No ano que vem, as taxas de ju- ros nos Estados Unidos vão começar a subir. Muito disso já está incorporado em preços de ativos em geral, mas há uma certa inse- gurança de que a inflação esteja aceleran- do em um nível mais preocupante do que o FED (Banco Central americano) está perce- bendo, e a gente pode precisar de uma mu- dança mais radical. Outro país de interesse é a China. Ela passou por um processo de impacto, por causa do mercado de constru- ção, nos últimos dois meses. O crescimento lá está tateando em torno de 5%. Hoje, cerca de 30% do PIB chinês é relacionado ao mer- cado de construção. O processo de desacele- ração desse segmento pode colocar alguns percalços na recuperação chinesa. A inflação é também uma preocupação no Brasil, onde os combustíveis vêm pressio- nando a alta de preços. Como o senhor vê o cenário do preço do petróleo para o pró- ximo ano? O preço do petróleo tem vários componentes. Neste momento, também te- mos esse descasamento entre demanda e oferta, uma recuperação forte da economia, desinvestimento ao longo da última déca- da por causa da pressão ambiental e, espe- cificamente, produção parada desde o ano passado. A demanda está pressionada por questões internacionais e questões domés- ticas não resolvidas, como a fiscal, que se junta ao cenário político turbulento no ano que vem. Quando pegamos as duas pontas, a tendência é que não haja sossego por par- te dos combustíveis, por causa de problemas no câmbio e no preço do barril de petróleo. Hoje faltam insumos em alguns seto- res. Isso pode se prolongar? De certa for- ma, pode se prolongar no curto prazo mas, dado que a retomada está normalizando [a disponibilidade de insumos] e aquela forte expansão de consumo dá sinais de desace- leração, talvez a produção também comece a normalizar. Eu diria que essa falta gene- ralizada está começando a cair. Claro que, por trás disso, precisamos acompanhar pro- dutores industriais importantes, como Ale- manha e China, que ainda estão às voltas com as questões da pandemia. Isso dificul- ta a retomada plena neste momento. Esta- mos melhorando, mas uma normalização completa vai depender de uma saída mui- to mais agressiva para esses países. Espe- ro que possa acontecer em 2022 e, talvez, lá em 2023, tenhamos uma normalização bem mais completa dessa disrupção das ca- deias de produção. Internamente, o que você espera para a economia brasileira no próximo ano? O próximo ano é muito complicado. Um ano eleitoral tenso, com candidatos que preci- sam ser acompanhados em suas políticas econômicas. Pegamos de saída uma infla- ção de dois dígitos, que não tem sido co- mum desde que o Plano Real foi lançado, em 1994. Tivemos três momentos de infla- ção de dois dígitos, só que nos outros – 2002, 2003 e 2016 – tivemos uma mudança políti- ca que conseguiu ajustar a casa, trazendo uma perspectiva de reformas que ajudou a acomodar a taxa de câmbio e pôr as expec- tativas para baixo. Hoje, temos um governo que abdicou do poder de fazer políticas eco- nômicas e está entrando em um ano eleito- ral complicado. Está propondo políticas fis- cais muito agressivas, e ainda temos mais de um ano desta forma. No curto prazo, a ten- dência de um sistema pressionado continua. No ano que vem, o Banco Central vai subir a taxa de juros com intensidade para ten- tar manter a inflação em torno de 5%. Nos- sa previsão é de um crescimento da econo- mia próximo de zero. ■ 23 Revista Indústria Brasileira

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