Revista Indústria Brasileira - Dezembro

Apesar disso, o economista Estêvão Kopschitz, do Instituto de Pesquisa Eco- nômica Aplicada (Ipea), avalia que o ce- nário atual é bom para o Brasil. “A econo- mia brasileira é muito influenciada pelo que acontece lá fora”, afirma ele, ressal- tando que hoje o momento é de muita in- certeza, porque “a situação da pandemia é diferente do que já aconteceu no passado”. O crescimento entre os países deve ser desigual, conforme preveem FMI e Bird, porque, em alguns lugares, o percentual da população vacinada ainda é muito bai- xo, especialmente nos países mais pobres. “Embora o quadro da pandemia tenha me- lhorado, não viramos a página integral- mente”, resume Rafael Cagnin, economis- ta-chefe do Instituto de Desenvolvimento Industrial (IEDI), que cita como exemplo da incerteza no cenário econômico a pio- ra do quadro em alguns países da Europa. Cagnin diz que, se a questão sanitária se mantiver sob controle – sobretudo com a chegada da variante ômicron –, não ha- verá grandes turbulências. “A prova vai ser agora, com o aumento de casos na Europa no final do ano. Se os países conseguirem passar bem por essa tensão, as incerte- zas vão se dissipar”, prevê. Nesse contex- to, há um conjunto de outros fatores que devem ser analisados com atenção no ce- nário econômico internacional: risco de desaceleração da economia chinesa, au- mento da inflação e reorganização das ca- deias produtivas. Em relação à economia da China, Cag- nin detalha que, há alguns meses, se acen- deu uma luz amarela com os sinais de de- saceleração provocada, especialmente, pela crise no mercado imobiliário. “Isso pode ter impacto importante para o Brasil, não só pela queda nas exportações, mas pela acomodação dos preços de commodi- ties que vinham subindo”, relata. Por outro lado, ele lembra que expectativas meno- res para o crescimento chinês podem aju- dar a arrefecer as pressões inflacionárias. Paulo Gala, professor da Fundação Ge- tulio Vargas de São Paulo (FGV-SP), avalia que a inflação seguirá elevada no próxi- mo ano e diz que esse cenário só muda- rá com a normalização das cadeias produ- tivas. “No dia em que não tivermos filas de navios em Los Angeles, podemos ter ideia de que a inflação está passando”, co- menta, referindo-se ao congestionamen- to de navios contêineres que aguardam para descarregar seus produtos, resulta- do do aumento da demanda por parte dos norte-americanos. O economista André Perfeito, da Necton Investimentos, explica que a inflação está profundamente ligada ao lado da oferta. “A pandemia atrapalhou as cadeias produti- vas. Um exemplo é a falta de chip eletrônico. Isso gera uma inflação com característica micro emmuitos setores, apesar de ter com- ponentes macro. Tivemos um período de in- flação de alimentos e aumento no preço do petróleo, que tem mais a ver com a oferta. O instrumento da taxa de juros, no mundo inteiro, é pouco eficaz para a inflação cau- sada por problemas de oferta”, avalia. “ "No dia em que não tivermos filas de navios em Los Angeles, podemos ter ideia de que a inflação está passando" ▲ Paulo Gala professor da FGV-SP 10 Revista Indústria Brasileira ▶ dezembro 2021 ▼ Capa

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