Revista Indústria - Abril 22

“Houve muitos avanços, mas ainda temos um longo caminho a percorrer. As mudan- ças climáticas impactam a questão hídrica, o que demanda mais investimentos para equa- cionar os problemas”, analisa Sebastian But- to, sócio da Siglasul consultoria. “Além dos investimentos normais, é muito importante a criação de planos de contingência para os momentos de escassez”, completa ele. A Agência Nacional de Águas e Sanea- mento Básico (ANA) estima que aumenta- rão em 42% as retiradas de água até 2040 – um incremento de 26 trilhões de litros extraídos dos mananciais. Sem investi- mentos, 70 milhões de brasileiros esta- rão em situação de risco hídrico e a in- dústria e o setor agropecuário poderão perder cerca de R$ 510 bilhões, segundo a agência reguladora. O debate sobre segurança hídrica não é recente. Ele remonta aos tempos da ela- boração da Constituição Federal de 1988, quando o termo Sistema Nacional de Ge- renciamento de Recursos Hídricos foi usado pela primeira vez. A Lei 9433/1997 disciplinou o uso desses recursos e, poste- riormente, a Lei 9984/2000 criou a Agência Nacional de Águas. “A ideia era promover estudos hidrológicos para planejar o bom uso da água e dos rios”, recorda o ex-profes- sor da Coppe/UFRJ Jerson Kelman. Com a experiência de quem foi presiden- te da Agência Nacional de Águas (ANA) e di- retor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Kelman aponta uma falha na legislação: a questão da territorialidade. “Se o rio passar por um estado, é esse ente federado que define seu uso. Se o mesmo rio cruzar dois estados distintos, pode ha- ver duas regras diferentes de manejo des- sas águas”, exemplifica ele. O país também enfrenta dificuldades com os resíduos sólidos: prioridade para 42% das empresas entrevistadas. Segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Sa- neamento (SNIS), em 2020, o Brasil possuía 1.454 lixões a céu aberto, e 20,8 milhões de habitantes (9,8% da população) sem acesso aos serviços de coleta regular direta e indi- reta. Nesse grupo desatendido, 88% das pes- soas são residentes em áreas rurais. EFEITOS SANITÁRIOS Por ano, são registradas mais de 350 mil internações hospitalares por doenças relacionadas ao saneamento inadequado. Aprovado recentemente pelo Congresso, o Marco Legal do Saneamento Básico tem o objetivo de modificar esse quadro. Para o diretor-executivo da Associação Brasilei- ra das Concessionárias Privadas de Servi- ços Privados de Água e Esgoto (ABCON/Sin- dicon), Percy Soares Neto, a melhoria no serviço de saneamento brasileiro dará um novo dinamismo à economia nacional. “Metade da população não é atendida por rede de esgoto, e 31 milhões de bra- sileiros não têm acesso à água. Se quiser- mos cumprir as metas de, até 2033, termos 90% da população com acesso ao esgoto e 99%, à água, precisaremos de esforços enormes de diversos setores da indústria nacional. E ela vai precisar estar prepara- da para isso”, pontua Percy. Para atingir essas metas, uma mudança em curso na cultura corporativa tem sido a ▶ “É necessário que mais atitudes concretas sejam tomadas para a preservação da água”, diz Gesner Oliveira (FGV EAESP) 28 Revista Indústria Brasileira ▶ abril 2022 ▼ Competitividade

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